Lição 6
Data: 30/03/2008 Leitura bíblica - Levítico 19:1,2; 1Pedro 1:13-16;
Romanos 12:1,2; Hebreus 12:4-14
INTRODUÇÃO
A doutrina da santificação daria, ela sozinha, para que se escrevesse um alentado livro. Entretanto, pouca é a literatura que a ela se dedica de modo especial, encontrando-se o tema como capítulos ou tópicos em alguns livros de teologia ou como verbetes em dicionários bíblicos. A grandeza e relevância dessa doutrina consistem no fato de ela abarca toda a continuação da vida cristã, começada com a regeneração; e, além disso, dela se ocupa toda a Bíblia tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, em seus três aspectos: como qualidade de ser (santo), como estado alcançado pelo homem em relação a Deus (santificado) e como o processo de transformação do caráter rumo a igualar-se com o Padrão, Jesus Cristo (santificação).
O não conhecimento adequado dessa doutrina resulta em tomada de posição afastada da Revelação, da Verdade, produzindo efeitos prejudiciais à vida cristã e às igrejas, como, por exemplo, a corrente de interpretação conhecida como da "impecabilidade do crente" ou corrente "perfeccionista", segundo a qual o crente em Jesus, após a regeneração, não peca mais, segundo uns, ou segundo outros, não peca mais após receber o que entendem como uma segunda bênção, ou revestimento do Espírito Santo. O não conhecimento do que significa santificação, nas Escrituras e na experiência cristã, abre as portas para a adoção de crenças e, conseqüentemente, de normas de comportamento contrárias à Palavra de Deus, como no exemplo citado. Outro exemplo é o da corrente "antinomiana", ou seja, a das pessoas que, no tempo apostólico, argumentavam que era melhor continuarem vivendo no pecado, sem a preocupação de santificação, porque, vivendo assim, fariam com que superabundasse a graça de Deus para elas.
O conhecimento da doutrina da santificação capacitará os crentes a adotarem uma atitude positiva e dinâmica na vida, no sentido de esforço consciente e deliberado, a fim de se apropriarem dos instrumentos da Palavra de Deus para crescerem na maturidade cristã, para se santificarem continuamente, sem os nervosismos e a arrogância dos fanáticos e sem o relaxamento moral dos indiferentes.
O QUE É SANTIFICAÇÃO
A Convenção Batista Brasileira aprovou, em sua 67ª Assembléia, a seguinte definição: "Santificação é o processo que, principiando na regeneração, leva o homem à realização dos propósitos de Deus para a sua vida e o habilita a progredir em busca da perfeição moral e espiritual de Jesus Cristo, mediante a presença e o poder do Espírito Santo que nele habita. Ela ocorre na medida da dedicação do crente e se manifesta através de um caráter marcado pela presença e pelo fruto do Espírito, bem como por uma vida de testemunho fiel a serviço consagrado a Deus e ao próximo" (Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, Série Documentos Batistas, 2ª ed., p.12).
Esta outra definição é de E.Y.Mullins: "Santificação significa o estado de alguém que é separado para o serviço de Deus, que pertence a Deus. Também significa a transformação interior de alguém que está separado, para a realização de um caráter santo" (MULLINS,E.Y., La Religión Cristiana en su Expressió Doctrinal, Casa Bautista de Publicaciones, El Paso, Texas, USA, p.425).
Para termos uma compreensão mais exata do que seja santificação é necessário compreendermos o sentido da palavra "santo", usada no Antigo Testamento. É a palavra kadôsh, cujo sentido literal é "separado". Daí kadesh, que significa "santidade" (separação). Estas palavras são usadas, primitivamente, na linguagem bíblica, para designar a separação das coisas e pessoas relacionadas ao culto, para uso exclusivo. Santificar algo ou uma pessoa era, cerimonialmente, separar essa coisa ou pessoa para o culto a Deus (The International Standard Bible Encyclopaedia, vol. III, p.1.403).
Esse sentido de separação cerimonial e moral é o mesmo que se encontra no Novo Testamento, sendo usada a palavra háguios (GINGRICH, F.E., Shorter Lexicon of the Greek New Testament, The University of Chicago Press, p.3). Santo é quem foi separado para Deus. Por isso, no Novo Testamento, os que se arrependeram e creram em Cristo como o Filho de Deus, tornando-se discípulos, filhos e membros do povo de Deus, são designados "santos". Paulo, escrevendo aos romanos, dirige-se aos crentes denominando-os "chamados para serdes santos" (Romanos 1:7). De igual modo, em relação aos filipenses: "Saudai a cada um dos santos em Cristo Jesus" (Filipenses 4:21). E nessa mesma passagem, volta a referir-se aos romanos (Paulo escreveu quando preso em Roma) como santos: "Todos os santos vos saúdam, especialmente os que são da casa de César" (v.22). O crente é santo porque foi separado da impiedade, do pecado, para pertencer a Deus e ao seu Filho Jesus. E sua santificação é o processo de vida que começa com o ato da separação de sua conversão e regeneração e continua durante toda a sua vida, à medida que ele vai se transformando pela renovação constante de sua mente, como exorta Paulo: "E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente" (Romanos 12:2).
A BASE PARA A SANTIFICAÇÃO
A base para a necessidade de o crente se santificar em sua maneira de viver está no fato de que Deus, que o chamou, é santo: Disse mais o Senhor a Moisés: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: sereis santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" (Levítico 19:1,2). O povo escolhido não deveria se misturar com os ídolos e cultos dos povos, nem seguir a devassidão moral destes. Deus é santo e seu povo precisa ser também.
O apóstolo Pedro usa essa passagem para exortar os crentes no Senhor Jesus a viverem em santidade, deixando claro que a santidade consiste na não conformação com as concupiscências do homem velho e que a qualidade de santo se expressa praticamente na maneira de viver, ou seja, no procedimento: "Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo. Como filhos obedientes, não vos conformeis às concupiscências que antes tínheis na vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, sêde vós também santos em todo o vosso procedimento, porquanto está escrito. Sereis santos porque eu sou santo" (1Pedro 1:13-16).
Em que sentido Deus é santo? Deus não tem mistura de mal em sua natureza; ele é perfeito em todos os aspectos. Ele é perfeito em amor; perfeito em justiça; perfeito em misericórdia; perfeito em verdade - ele não pode mentir (Tito 1:2) - ele é perfeito em toda a sua natureza, em todos os seus atributos, em toda a sua revelação, em todos os seus atos. A total perfeição de Deus é a sua santidade. Visto que fomos chamados por Deus para formarmos o seu povo, e fomos adotados como seus filhos pelo ministério de sumo sacerdote e perfeito sacrifício do Senhor Jesus Cristo, nós temos que alcançar o Padrão que é Jesus, a expressão objetiva, a revelação pessoal e histórica de Deus, que é santo. É por isso que não pode haver vida cristã sem santificação. É por isso que o autor da Carta aos Hebreus, exortando os crentes à santificação, diz: "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hebreus 12:14). Essa exortação não significa que só verá a Deus quem tiver alcançado, aqui neste mundo, a perfeição de Deus, mas todos aqueles que estiverem desenvolvendo o processo de santificação, porque são filhos de Deus, porque realmente nasceram de novo, e como filhos estão crescendo. Quem não é regenerado, quem não tem a nova natureza em Cristo, não pode entrar no processo de santificação, e por isso mesmo não verá a Deus.
DISTORÇÕES NA DOUTRINA DA SANTIFICAÇÃO
Há três distorções doutrinárias relativas à santificação, duas das quais referidas na introdução:
1. Distorção antinomiana - Nos dias de Paulo raciocinavam assim: Se onde há o pecado aí há superabundância da graça de Deus, então o melhor é viver naturalmente no pecado, sem nenhuma luta para vencê-lo, para usufruir essa abundância de Deus. Paulo destriu esse absurdo com o argumento de que o efeito primário da graça de Deus é exatamente de destruir o pecado. Não pode haver combinação e convivência de pecado e graça. Essa corrente a que Paulo combateu recebeu a designação de "antinomiana", que significa adepto da antinomia, isto é, contradição de lei e de princípio. O nome foi aplicado novamente aos protestantes no século XVI, mas porque contraditaram o ensino católico de necessidade das obras para a salvação.
2. Distorção da impecabilidade ou perfeccionismo dos crentes.
Essa corrente de interpretação crê que todo filho de Deus é perfeito desde que foi regenerado, e por isso nunca mais peca. A Bíblia e a experiência cristã ensina o contrário. O apóstolo João disse: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1João 1:9,10).
3. Distorção da santificação repentina como um ato. É a distorção
encontrada geralmente entre os pentecostais de todos os grupos. A crença é de que o salvo precisa receber uma segunda bênção, após sua conversão, que chamam de "batismo do Espírito Santo" e que, a partir dessa experiência, o crente é imediatamente santificado. Temos visto que toda a Palavra de Deus ensina que a santificação começa na regeneração e prossegue pela vida toda. Como diz Mullins: "A santificação é a aquisição do caráter moral, que o cristão faz por meio de uma luta" (op.cit.p.428).
O AGENTE E OS INSTRUMENTOS DA SANTIFICAÇÃO
1. O agente - O agente da santificação é o próprio Deus em sua manifestação e
operação triúna. O Senhor Jesus, na oração intercessória pelos discípulos, rogou ao Pai: "Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade" (João 17:17). Ele sabia, portanto, que Deus, e Pai, tem o poder e a operação de santificar. Jesus se santificou a si mesmo para possibilitar que o Pai santificasse os discípulos na verdade: "E por eles eu me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade" (v.19). O sentido de Jesus santificar-se é o de se consagrar definitivamente, com decisão voluntária irremovível de se oferecer como sacrifício. A santificação de Jesus tem o sentido de sua separação e consagração como o sacrifício perfeito de si mesmo. Assim, a morte de Jesus na cruz possibilitou a regeneração, a libertação, a adoração, a santificação das pessoas para Deus. Jesus é, destarte, também, agente da santificação. Lemos em Hebreus: "É nessa vontade dele que temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre" (Hebreus 10:10). E o Espírito Santo, guiando o crente em toda a verdade (João 16:13), consolando e intercedendo pelos crentes, fortalece-os e os estimula à santidade: "Do mesmo modo também o Espírito Santo nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Romanos 8:26). Paulo aconselhou aos gálatas: "Andai pelo Espírito e não haveis de cumprir a cobiça da carne" (Gálatas 5:16).
2. Os instrumentos da santificação - Em primeiro lugar, a Palavra. O Senhor
orou ao Pai pedindo que santificasse os discípulos pela verdade, e disse: "A tua palavra é a verdade" (João 17:17). A verdade é aprendida por todos os meios na igreja: na pregação, no ensino da EBD, nas orações, na comunhão com os irmãos, nas experiências de provação e tentação. À medida que o crente aprende a Palavra e a aplica à sua vida, como parâmetro para suas decisões, atitudes e cometimentos, ele vai se santificando. Outros instrumentos para a santificação: a oração sem cessar; a vigilância mantendo a mente purificada de más influências e sempre pronta a descobrir de que maneira poderá vir a tentação.
PARA APLICAR À VIDA
1. O crente que deseja com sinceridade santificar-se continuamente aceita o
Senhor Jesus e seus ensinamentos como guia e padrão para a solução de todos os problemas morais, para a tomada de atitudes e para todas as suas decisões. Não pode haver santificação para aqueles que vivem separados de Jesus e indiferentes aos seus ensinos.
2. As igrejas de Cristo, como corpo dele, precisam ter a consciência de
santificação, impedindo o acesso à membresia de não regenerados e a adoção de práticas contrárias à Palavra de Deus, nos cultos, nos costumes, na imitação do mundo. Santificar-se é romper continuamente com o mundo: com sua mente, com seus valores, com seu comportamento, para imitar o Senhor Jesus em tudo.
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domingo, 30 de março de 2008
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