sábado, 5 de abril de 2008

"Vimos a sua glória como a do Pai"

Texto bíblico:
João 1:1-51
Texto áureo:
João 1:14


No momento em que abrimos as nossas páginas de estudo neste trimestre para um livro tão importante significativo como este, deveríamos fazê-lo quase que de joelhos. Os escritos de João são de uma delicadeza e singeleza moral mas, também, de uma profundidade espiritual tal que mereceriam esta espécie de reverência, pois o que vamos ler, se pararmos para meditar um pouco no conteúdo, vai-nos levar, sem dúvida, a momentos de muita inspiração e devaneios espirituais. Vejam a preciosidade desses primeiros cinco versículos (João 1:1-5): "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela".
Todo o decorrer do livro será eivado de passagens que, se devidamente analisadas por nós, irão nos transportar a momentos de muita inspiração e, diríamos mesmo, de êxtase espiritual. Sem dúvida alguma, o autor deste livro, João, era muito sensível. Em geral, os introspectivos o são. Porque não exteriorizam seus sentimentos, a dimensão deles é ampliada, aprofundada, intensificada. Inegavelmente, também, deveria ser João uma personagem "amorável". E com essa palavra queremos dizer que muito amava e era amado. As citações evangélicas o distinguem como o "discípulo amado", numa evidente predileção que deveria ser muito bem administrada pelo justo Mestre. Afinal de contas, era o "caçula" do colégio apostólico, supomos e, por isso mesmo, objeto talvez de atenção e cuidados maiores. Era ele que, numa atitude de confiança e intimidade, reclinava a cabeça no peito de Cristo. E por ser ele este ser amável, pôde captar e reproduzir com tanta plenitude e simplicidade as páginas memoráveis e vivenciadas por Cristo, transbordantes de amor, e amor incomparável. Só mesmo alguém que se tornara um instrumento do amor poderia assim fazê-lo.

ENTENDENDO A EXPRESSÃO "VERBO"

O verbo é Jesus. Esse "logos", no original grego, é a palavra divina manifesta em forma de gente ente os homens. Cristo é o verbo, à medida que foi por meio de sua vinda ao mundo que Deus falou ao homem, se expressou à sua criatura foi visto e tocado pelo ser humano, bebeu, comeu, dormiu, sorriu, sentiu dor e chorou como qualquer criatura. Este "verbo", palavra, quer dizer que foi esta a forma como o Senhor Deus materializou a sua comunicação com a sua criatura por excelência fazendo-se assim, "Deus conosco", porque se comunicou pessoalmente com a sua criação.

Ele estava com o Senhor, o Pai, no princípio de tudo, e tudo foi feito com a sua assistência (Gn 1:26), daí expressão "por intermédio dele" e a extensão mais profunda ainda com o complemento que o autor acrescenta de que "sem ele nada do que foi feito se fez". Interessante que, como a primeira inserção divina na Criação foi o "haja luz" (Gn 1:3), a primeira manifestação de Cristo na história foi também a luz, a luz de uma estrela (Mt 2:2). Esta luz, a luz da salvação trazida por ele ao mundo, prevaleceu conta as trevas do pecado e chegou aos nossos dias para nossa alegria e paz.

A DIVINDADE REVESTINDO-SE DE HUMANIDADE

É isto que João descreve neste primeiro capítulo de seu livro. Sim, o verbo se fez carne. Cristo se tornou gente como nós. A suprema divindade dele se reveste da limitada humanidade nossa para, por meio desta união impossível em seus opostos, mas possível no propósito do amor divino, proporcionar-nos a graça salvadora nesta vida e a bênção da eternidade com ele depois desta vida.

Os registros do Evangelho de João constam dos manuscritos mais antigos do grego neotestamentário. Ou seja, são escritos de cerca de 2 mil anos atrás. Fica difícil, dado o conhecimento que temos hoje no campo da teologia, sabendo-se o quanto custou a evolução desses princípios e conceitos através dos séculos, imaginar-se como seria possível a um rude pescador da Galiléia antiga descrever com tanta propriedade e beleza a singularidade dessa revelação magnífica de Deus aos homens. Só mesmo pela inspiração dele é que podemos, de alguma forma, alcançar como foi que João, o apóstolo do amor, pôde se tornar o instrumento do Senhor para escrever um texto sem igual como este. Quando o Senhor quer, ele transforma nossa limitação em capacidade, nossa nulidade em realização. Foi isto que aconteceu com João.

A PROFECIA QUE SE CUMPRE


João, o Batista, foi o precursor do evangelho que Cristo trouxe ao mundo. É impressionante notar como, depois de 400 anos do fechamento da revelação bíblica do Antigo Testamento, a história começa a se reiniciar apontando agora para o Cristo de Deus, o Messias prometido, aquele que Isaias anunciou em sua profecia, no capítulo 40 de seu livro.

Os religiosos da época vão ficar impressionados com a pregação de João e irão questioná-lo. Ele vai dizer claramente que não é o Cristo, ou seja, não é o ungido de Deus, o Messias, como esperavam os judeus. Ele vai dizer, também, que não é a manifestação rediviva de nenhum profeta do passado, como Elias, por exemplo. E, diante de sua persistência, vai responder-lhes: "Eu sou a voz do que clama no deserto. Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaias" (Jo 1:23).

Ele era apenas o precursor. A voz que clamava. A voz que se ergueu nos desertos da Judéia para anunciar a vinda próxima do Filho de Deus. A voz que apontava a necessidade de mudança de vida. A voz que advertia sobre o pecado cometido e a exigência de Deus para que alterassem os seus planos e endireitassem os seus caminhos.

JOÃO BATISTA ANTEVÊ O CALVÁRIO

Fica difícil compreender isto mas, quando João Batista manifestou o seu conhecimento da salvação que o mundo encontraria em Cristo, ele estava como que antevendo a crucificação do Senhor Jesus. Sim, quando ele compara o Cristo ao cordeiro, é como se dissesse: assim como o cordeiro do homem é usado por ele para o sacrifício por seus pecados no culto do templo, livrando-o da culpa, assim o filho de Deus será usado por ele, o Senhor, para tirar do mundo o seu pecado, e com ele, a morte. Ele, que não vai viver para ver a sua revelação cumprir-se, viu-a pelos olhos da fé e da profecia quando disse: "No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29).

Podemos afirmar que, nesta palavra de João, a revelação bíblica estava por se cumprir. Tudo aquilo que desde Abraão começou a delinear-se para a história da humanidade, iria encontrar em Cristo a sua realização plena.

CONCLUSÃO

Discípulo é aquele que segue alguém. É aquele que aprende do que ensina e procura colocar em prática os ensinamentos que recebeu do mestre. A palavra que tem sua origem no Latim, quer dizer, basicamente, aluno, aprendiz. No entanto, no sentido evangélico e cristão, a palavra discípulo quer dizer muito mais do que um simples aluno ou aprendiz. Discípulo, no sentido extraído da Palavra de Deus, é aquele que segue Jesus. É isto, exatamente, que o exemplo de João e André nos mostra: "Aqueles dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus" (Jo 1:37).

João e André, com suas atitude de desprendimento e coragem, nos ensinam muito. Eles já estavam devotados a uma causa, o discipulado de João, mas não hesitaram em deixá-la, para se dedicarem a uma causa maior ainda, o discipulado de Cristo, o Salvador, aquele que tiraria o pecado do mundo.

Eu e você temos funções a realizar no mundo hoje. Estamos vinculados a esta ou aquela obra. Maior ou menor, não importa. Na dimensão humana do mundo de hoje, têm elas o seu devido valor. No entanto, a Bíblia nos está apontando para Cristo, o Cordeiro de Deus. Importa que, como João e André, deixemos as causas que nos enredam e sigamos a Jesus. No meu trabalho, no seu lidar, há, sem dúvida, lugar para sermos seguidores de Cristo.

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