sábado, 12 de abril de 2008

"Jesus Manifestou a Sua Glória"

Texto bíblico:
João 2:1-25
Texto áureo:
João 2:11

O Evangelho de João é todo especial. É diferente dos demais. Enquanto Mateus, Marcos e Lucas são chamados de Evangelhos Sinóticos, ou seja, aqueles que são escritos por um mesmo ângulo de visão, dentro de uma ótica idêntica, a narrativa cronológica dos fatos que cercaram a vida do Mestre, João faz uma abordagem diferenciada, detendo-se por isso mesmo, em aspectos não citados ou mencionados pelos outros.

A introdução que faz no capítulo primeiro sobre a pessoa de Cristo não é encontrada em nenhum outro. A descrição detalhada que faz do encontro no Cenáculo, nos capítulos 13 a 17, também não tem similar. Embora não cite muitos dos eventos registrados nos outros, tem uma capacidade sem igual de trazer novos enfoques, o que complementa de forma poderosa e belíssima a descrição dos seus três colegas de ministério. O primeiro milagre de Cristo, realizado em uma cerimônia de bodas na cidade de Caná, é um deles. Nenhum outro o registra, sendo apenas João que nos chama a atenção para ele, evidenciando desta forma, por um momento de sociabilidade na vida do Mestre, o início de ação em seu ministério terreno.

UMA LIÇÃO DE SOCIABILIDADE

O texto da lição de hoje começa por nos chamar atenção para um fato muito interessante, como o versículo 2 nos registra: "e foi também convidado Jesus com seus discípulos para o casamento". Muitas vezes, podemos pensar em Cristo como alguém recluso e insociável. Em geral, associamos às figuras de prestígio e influência uma fama de pessoas distantes e inatingíveis. Parece que não podemos vê-las fazendo ou participando de algo que nós, os seres comuns e simples, fazemos. Cristo nos ensina exatamente o contrário. Como Senhor e Salvador do mundo, ele vai ao jantar na casa de Simão, frequenta a casa de Marta, Maria e Lázaro em Betânia, convida Zaqueu para recebê-lo em sua própria casa, hospeda-se com Pedro. E vai, também, a um casmento.

Interessante que este fato vai resultar exatamente na realização do primeiro sinal de Cristo como Filho de Deus, dono do poder e do domínio sobre as coisas e as matérias. Assim como irá multiplicar o pão, mais tarde, ele agora transforma seis talhas de água em seis talhas de vinho, para que a festa prossiga. O Senhor não exige reclusão e solidão apenas, mas, também, nos quer alegres, sociáveis, participantes.

PERCEBENDO A GLÓRIA DE DEUS

O início de qualquer atividade ou ministério deve ser marcado sempre por algum tipo de evento que sinalize de forma positiva o futuro que virá. No caso de Cristo, é interessante verificar que ele começa o seu ministério com um sinal diante de algo bem significativo para o povo hebreu: um casamento. O que ele fez, salvando a festa das bodas daquela família, pode ter passado despercebido para muitos dos convidados, mas não para Maria, seus irmãos e seus discípulos. Foi para eles que aquele sinal se fez: "Assim deu Jesus início aos seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele" (João 2:11).

Uma das coisas mais belas da vida cristã é termos a devida percepção da glória do Senhor ao nosso redor. Muitas vezes, ficamos de tal maneira presos aos números e fatos da vida secular que não percebemos a presença da glória do Senhor nas pequenas coisa que nos cercam: a igreja que cresce, as conversões que se dão, as vitórias alcançadas, a paz em nosso lar, coisas simples e comuns, mas que são resultantes da bênção e da graça do Senhor sobre os crentes e a igreja. Os discípulos, porque viram esta manifestação, creram nele, e tudo de maravilhoso e grandioso que irá acontecer no futuro daqueles dias na Galiléia vai começar a partir daí.

UM CRISTO DIFERENTE

Um dos aspectos que distingue o Evangelho de João dos demais chamados Sinóticos é exatamente a falta de uma continuidade cronológica mais precisa. Para alguns comentaristas, esta ida de Jesus a Jerusalém, que João aborda logo depois do primeiro milagre, não teria acontecido no início do ministério terreno do Mestre e, sim, no final. Eles divergem, inclusive, sobre quantas vezes teria ido o Senhor a Jerusalém, o que torna mais difícil a correlação das datas e episódios. No entanto, tudo faz crer que esta purificação do templo aconteceu na última semana de Cristo em seu ministério, pois existe muita correspondência de dados entre o que conta João e o que temos registrado nos capítulos finais dos Evangelhos de Mateus (21), Marcos (11) e Lucas (19).

O fato é que esta narrativa nos leva à presença de um Cristo que em geral desconhecemos. Vêmo-lo sempre bondoso, amável, perdoador, amigo e, muitas vezes, temos dificuldade em enquadrá-lo num perfil de exigência, cobrança e esforço físico. Devemos lembrar sempre que Cristo era o Filho de Deus e, por isso mesmo, sua trajetória terrena teria que conter, também, momentos de imposição, juízo e até mesmo demonstração visível de força e valentia física, como vemos no versículo 15.

O que precisamos entender é que o amor é justo também. Cristo amava as pessoas, mas o seu zelo pela justiça, como Filho de Deus que era, esperava que essas pessoas tivessem o mínimo de reverência e zelo pela casa do seu Pai. Ele estava diante de um quadro indescritível por sua baixeza: o templo do Senhor conspurcado, sujo, transformado em mercado, palco da baixaria do comércio ambulante, vil e mercenário. Isto era algo inconcebível para o Filho de Deus.

UM COSTUME QUE SE TORNOU ATUAL

Infelizmente, o que Cristo viu e recriminou como lemos: "Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócios" (João 2:16), vai tornar-se um costume mundial e permanente. Em Éfeso, Paulo vai enfrentar problemas, porque o mercantilismo em torno do culto a Diana estaria sendo prejudicado por sua mensagem. Nas grandes cidades do paganismo da Antigüidade isto já se dava. Em Nínive, em Babilônia, em Atenas, em Roma, a presença desse mal estará sempre marcante, em todas as épocas da humanidade. Hoje, ainda, há "grandes santuários" que subsistem por esta forma de comercialização. Vá a qualquer país da Europa católica e verá, em torno das grandes catedrais, o mesmo tipo de comércio. Em nosso Brasil mesmo, as "quermesses" e bazares associados a datas e locais "santos" estão presentes em todos os estados, em maior ou menor escala. E, infelizmente, em nossas igrejas, temos também permitido que tais coisas se façam.

CONCLUSÃO

Vamos pensar no que está contido no versículo: "... e não necessitava de que alguém lhe desse testemunho do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem" (João 2:25). Nenhum outro Evangelho nos revela isto. João, pela peculiaridade de sua narrativa, a mais intensa e densa descrição da vida de Cristo que o NT contém, nos apresenta pensamentos ou situações inusitadas e que nos convidam a sérias reflexões, como o texto acima.

Sim, à medida que nos lembramos que Cristo conhece o que vai dentro de nós, ficamos extremamente vulneráveis ao seu exame daquilo que vai em nosso coração. Os maus pensamentos, as intenções malévolas, as iras, os sentimentos impróprios, tudo isto, se os tivermos, estará sempre exposto ao crivo do Senhor de nossa vida, pois ele sempre sabe o que vai no fundo do nosso ser. Já imaginaram o sentimento de Cristo durante três anos vendo Judas ao seu lado e sabendo o que lhe aconteceria? Já sentiram a decepção dele falando ao jovem de qualidade, convidando-o ao seu serviço, mas sabendo que ele iria preferir as riquezas desta vida? Este confronto da divindade de Jesus com a humanidade de que se revestira deve ter sido um fardo pesado que ele conduziu em todo o tempo em que esteve na terra. Vamos torná-lo, agora, mais suave para ele, vivendo de tal forma que ele saiba que aquilo que vai em nosso coração nada mais é do que nossa devoção e fidelidade a ele.

Nenhum comentário: