sábado, 10 de maio de 2008

"A verdade vos LIBERTARÁ"

Texto bíblico
João 8 e 9

Texto áureo
João 8:31-32


O tempo do confronto vai chegar, segundo a narrativa de João. Como o seu Evangelho não obedece à cronologia dos eventos registrados nos Sinóticos, não podemos precisar, exatamente, quando estes fatos estarão ocorrendo, embora possamos depreender que devam ter se dado em meio ao seu ministério, um a um ano e meio antes de sua morte e ressurreição. Aliás, João é o único dos evangelistas que nos apresenta essas diversas visitas de Cristo a Jerusalém.

Estes dois capítulos nos apresentam Cristo em uma dessas idas a Jerusalém, enfrentando a oposição no templo e realizando os milagres do perdão e da cura, daí o título da lição de hoje. Estes fatos vão se dar em três momentos diferentes:

Primeiro, por sua atitude de negação da lei judaica diante de uma mulher pecadora (8:1-11);
Segundo, por seu discurso acusador em face das autoridades religiosas (8:12-59);
Terceiro, por causa da cura desafiadora que faz de um cego de nascença (9:1-41).

A MULHER PECADORA E A AUTORIDADE DE CRISTO

A cena descrita neste texto é uma das mais dramáticas da narrativa dos Evangelhos. O castigo infligido à mulher acusada de adultério na sociedade judaica era algo selvagem e desumano. Vinha dos tempos do Antigo Testamento. A vítima era arrastada pela rua, "jogada aos trancos e barrancos" como hoje se diz. Todos tinham o direito de chutá-la, pisar ou cuspir nela, até chegar ao lugar do apedrejamento. Aí, então, é que a coisa deveria começar mesmo, pois todos, também, tinham o direito de atirar a sua pedra ou mais. Ela deveria morrer apedrejada. O sofrimento era terrível, pois só quando uma pedra atingia a cabeça em área delicada, a vítima deveria desfalecer. Enquanto isto não acontecesse, ela sofria horrivelmente com as pedradas que a atingiam nos braços, no dorso, no tórax, nas pernas, em todo o corpo, enfim.

É a este quadro que lançam o Mestre. A mulher, inocente ou não, a história não nos é contada, se vê jogada aos pés do Senhor Jesus. A reação dele é incompreensível. Aparentemente, não se deixa impressionar com o quadro trágico, continuando alheio ao problema que lhe trazem como se nada lhe dissesse respeito. Passa até a fazer de contas que estava escrevendo algo sobre a terra do solo. Sua pergunta, tranqüila e silenciosa inquisição aos acusadores - "Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra" - é de tal peso moral e espiritual que os homens, além de não atirarem uma pedre sequer, reagem de forma inusitada, retirando-se um a um do local da cena.

A autoridade de Cristo era impressionante. Mesmo sendo questionado pelos judeus, quando faz tal desafio, eles o temem a tal ponto que nenhum deles, mesmo o mais leviano dos acusadores, atira a sua pedra. Por certo, o coração daquela mulher havia sido aberto por Cristo, que via nela uma alma frágil, pecadora, mas temente a Deus e carente de perdão. Por isso, o Senhor vai lhe perdoar o pecado e apenas exigir-lhe, então: "Vai-te, e não peques mais".

A PALAVRA ACUSADORA E QUESTIONADORA

O texto que temos diante de nós é de confronto (8:12-59). Digamos que o Senhor Jesus se apercebia, pelo plano do Pai, que as coisas se ultimavam para o seu sacrifício. Verdades que estavam sendo transmitidas de forma implícita em seus discursos precisavam agora, ser expostas mais claramente. Ele vai assumir, neste texto que lemos, a sua filiação divina. Vai fazê-lo porque, pela presciência do Pai, sabia que "a sua hora" ainda não estava iminente (v. 20), mas que se aproximava com rapidez.

A pregação de Cristo torna cada vez mais tenso o debate com os líderes religiosos. Dada a falta de sensibilidade espiritual daqueles homens, de tal forma amarrados à lei que não podiam perceber a diferença de Cristo diante de todo o passado histórico do povo de Deus, passado este pelo qual demonstravam tanto zelo, o Mestre vai ser obrigado a ser cada vez mais contundente em suas palavras, a fim de tentar despertar-lhes a verdade. A discussão chega ao clímax quando se coloca maior que a grande personagem bíblica, para os judeus. Para eles, Abraão, o chamado pai da fé, o pai da nação israelita, não podia ser menor que um vulgo "mestre" vindo da Galiléia dos gentios, filho de um carpinteiro, sem formação reconhecida, trazendo atrás de si meia dúzia de rudes discípulos. Eles vão se insurgir contra a afirmação de Cristo com a tentativa de escorraçá-lo, o que não vão conseguir, pois, mais uma vez, tal como em Cafarnaum, o Senhor vai deixá-los em oculto, sem que o percebam. O que fica para nós do texto é que a pregação do evangelho em determinados momentos e ambientes, precisa ser feita com certo impacto, pois só assim é que alma rebelde vai vislumbrar a verdade salvadora.

O CEGO DE NASCENÇA E A CURA INUSITADA

Eis um dos episódios bíblicos de mais difícil compreensão à mente do homem da pós-modernidade. Mesmo aos crentes experimentados e veteranos, a dificuldade para entender o fato se apresenta: Que cura mais esquisita! - comentamos. Se ele curou alguns simplesmente pelo falar, por que, no caso deste cego em Jerusalém, o fez desta forma que, poderíamos dizer, é totalmente anti-higiênica e contrária a qualquer princípio sanitário? Misturar cuspe e terra para fazer uma espécie de emplastro e, com ele, lambuzar os olhos do cego? - mencionamos, alguns até expressando no rosto um certo asco.

No entanto, lembremo-nos, estamos falando de outros tempos. Cerca de 20 séculos nos separam daquela cura maravilhosa. Há registros históricos que nos apontam a crença, na época, para o poder curativo tanto da saliva (a fonte da vida, pois brotava do interior do próprio indivíduo) quanto da terra (a força motora com seu poder de fazer brotar e germinar). Tácito, Suetônio e Plínio, historiadores romanos, citam situações em que algo assim teria acontecido. Portanto, não era uma novidade ou um novo modismo que o Senhor Jesus estava introduzindo. Por que o fez? Isto, sim, é o "x" da questão.

Cristo o fez porque precisava provar a fé daquele homem. Não foi a saliva nem o lodo feito com a terra que curou o cego e, sim, o que aconteceu quando "disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa Enviado). E ele foi, lavou-se, e voltou vendo" (João 9:7). O que curou o cego foi a sua fé no Senhor Jesus. Podemos imaginá-lo, titubeante e cambaleante, tentando encontrar o caminho até o tanque, onde chegou, por certo, com o auxílio de alguém, na certeza de que, quando tirasse o lodo com que o Senhor untara os seus olhos, ele estaria vendo. Porque assim cria, assim aconteceu. Logo que limpou os olhos, ele, que nunca vira, teve os seus olhos abertos. Ele precisou apenas crer para ver! Enquanto muitos de nós, tais como Tomé vai afirmar mais tarde, precisamos ver para crer.

CONCLUSÃO

A atitude deste cego, após a transformação que ocorrera em sua vida, é notável. Com firmeza e até com certa ironia enfrenta a desconfiança dos líderes religiosos ("Se é pecador, não sei... O que sei é que era cego, e agora vejo"). Cristo muda a nossa vida também. Este cego de 2000 anos atrás tem uma reação tão espontânea e natural quanto a do homem do nosso século, que diante de todo o seu passado de erros e maldades, convertendo-se, afirma diante da igreja: Uma coisa eu sei: eu até ontem era pecador e mau, mas hoje sou uma nova criatura por Cristo, que me salvou! Eu já ouvi isto em sessões de profissão de fé em nossas igrejas e, por certo, os leitores, também, já o ouviram. Uma resposta tão objetiva e direta assim só sai do coração daquele que, recebendo Cristo em sua vida, conclui que o pecado e o mal não mais prevalecem em seu viver cristão a partir de agora: "Eu era cego, e agora vejo!"

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