Texto bíblico:
João 3:1-36
Texto áureo:
João 3:16
Estamos entrando num dos mais profundos textos da Bíblia a respeito da essência da verdade teológica que deve cercar a vida do homem, ou seja, a sua vinculação ao divino e espiritual. Os conceitos que o Senhor Jesus vai emitir nesta conversa com Nicodemos, um fariseu que deveria estar impressionado com as aparições do novo mestre em início de seu ministério, são de tal sutileza e inteligência que só as mentes mais voltadas para o lado espiritual poderão compeendê-los por inteiro. Mentes presas aos aspectos físicos e materiais da vida, mui, dificilmente, se aperceberão desses princípios. São idéias novas, até então não cogitadas pelos pregoeiros da revelação de Deus, os profetas do passado, e que Cristo vai começar a ensinar. Digamos que João, o Batista, deu partida a essas considerações, quando falou sobre o arrependimento, o batismo na água e no Espírito, mas Cristo, agora, é que vai aprofundá-las, explicá-las e torná-las vivas ao coração do homem.
Nicodemos era um membro do sinédrio. Tinha, portanto, a formação acadêmica do judeu culto e instruído. O fato, aqui narrado, deve ter-se dado numa das primeiras idas de Cristo a Jerusalém, sendo, assim, um retorno histórico que demonstra a pouca preocupação de João com os aspectos cronológicos de sua narrativa.
O NOVO NASCIMENTO
Com o texto do versículo 3 - "em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" - Jesus está convidando o fariseu sério e preocupado a uma reflexão transcendental. A mudança de vida, a transformação do coração, a criação de um novo ser, dentro daquele que já existe em nós, físico e mortal. Este nascer de novo é o que aconteceu comigo e com você, quando reconhecemos a Cristo como Salvador e Senhor de nossa vida.
Nos versículos seguintes, o Mestre faz uma revelação a Nicodemos, comprovando, primeiro, a separação entre o ser humano, carnal e finito que somos nós, e o ser espiritual e eterno que em nós habita e, em segundo lugar, uma declaração sobre a simplicidade daquilo que dissera. Não havia nada de mais em "nascer de novo", pois ele não estava falando do nascimento físico, mas, sim, do nascimento espiritual. O que era dificil para Nicodemos entender no plano físico (o filho retornar ao ventre da mãe para renascer), o seria muito simples, embora milagroso: o nascer do Espírito para uma nova vida.
UMA COMPARAÇÃO MARCANTE
Indo além em seus ensinos de forma que o fariseu viesse a ter sua mente aberta para a revolução que ele representava em seus conceitos e princípios, Cristo faz, nos versículos 14 e 15, uma analogia entre Moisés, o grande líder do povo hebreu, e ele mesmo, Jesus, o Filho do homem: "E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna" (João 3:14,15).
Nicodemos, sem dúvida, conhecia a história. Pelo pecado do povo de Deus no êxodo, o castigo veio na forma de cobras no deserto, que picavam e matavam. Para salvar o povo da morte, Moisés foi orientado por Deus a confeccionar uma serpente de bronze e erguê-la com uma haste sobre as dunas de areia. Assim, todo aquele que era picado salvava-se da morte, se fitasse a serpente de metal. A revelação deve ter calado fundo em Nicodemos. A comparação era muito forte. Só que ele não sabia ainda que aquele "levantar-se" do Filho do homem seria também numa haste, a cruz que o levou ao Calvário, fazendo com que todo aquele que, em todos os tempos, olha para ele, alí, e crê nele, seja salvo da picada do pecado, a morte.
UMA AUTODECLARAÇÃO IMPRESSIONANTE
Os versículos 16 a 18 são impressionantes no que nos declaram. Um deles, o 16, se tornou, inclusive, no versículo-chave da Palavra de Deus. Mas, no conjunto, eles explicitam algo de suma importância teológica: Jesus é o Salvador e não o Juiz. O mundo precisa entender que ele veio para morrer pelo pecado de todos, pois, por meio deste sacrifício a que se entregou voluntariamente, ele nos permitiu alcançar a salvação eterna. Se não cremos nele, não é ele que nos condena mas, da mesma forma que terá morrido por todos os que nele crêem, ele terá morrido, também, por aqueles que não creram e que serão condenados pelos pecados cometidos. Daí, a percepção inspirada de João dando continuidade à grande verdade que nos está apresentando no versículo 18: "Quem crê nele não é julgado, mas quem não crê já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus". Portanto, não é Cristo quem nos julga. Ele apenas se dá por nós, esperando que todos nos salvemos. Se isto não acontece, não é ele que nos está condenando à morte eterna, mas o próprio homem que, por sua vontade própria, opta por não crer no Filho de Deus, recebendo, assim, a morte eterna.
O TESTEMUNHO DO PROFETA JOÃO BATISTA
O capítulo vai terminar com a narrativa de uma disputa entre os discípulos de Cristo e os de João Batista, sobressaindo-se, em todo o texto, as verdades ditas por este homem extraordinário que foi o filho de Isabel e Zacarias, parente próximo do próprio Cristo. Ele vai revelar aspectos maravilhosos sobre a vida e missão de Jesus. Reconhece que o ministério dele é divino. Reafirma que ele mesmo não é o Cristo. Demonstra o seu regozijo pela chegada daquele que era o Messias. E, finalmente, menciona algo da maior profundidade teológica para os crentes ontem e hoje. Algo de dificil compreensão para muitos: Cristo só fala daquilo que o Senhor Deus lhe passou, e isto é recebido pelo ser humano de forma diferenciada para cada um de nós, pois ele não nos dá o Espírito Santo em medida certa, única, mas adequada e apropriada para cada crente, de acordo com sua maior ou menor espiritualidade. Para, então, no último versículo (3:36), declarar algo de sublime valor para mim e para você, para toda a cristandade, enfim: "Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus".
CONCLUSÃO
Para nossa conclusão ser mais bem aplicada aos tempos de hoje, vale a pena voltar um pouquinho atrás. No versículo 30, João declara algo que é de sublime aplicação à liderança evangélica em nossos tempos: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". Sim, eis aí a grande dificuldade dos líderes humanos. Todos desejam sempre brilhar mais e mais. Logo que surge alguém que pode ofuscar o brilho e a liderança que um desses "luminares" do mundo exerce, este, de alguma forma, vai tentar se tornar maior, ou mesmo, o que é pior ainda, prejudicar a trajetória ascendente do concorrente. João nos ensina o contrário. Era necessário que Cristo crescesse e que ele diminuisse, mesmo que isto significasse para ele a morte.
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